domingo, 11 de maio de 2014

(I) ❝Aquilo que devemos ser❞

Há quase quatro anos atrás eu passei por uma mudança drástica na minha vida. Eu havia acabado de terminar o ensino médio, tinha apenas 16 anos, e não sabia o que fazer. Todos os meus amigos tinham planos, haviam feito cursos preparatórios, técnicos, especializados; haviam escrito promessas, sonhos e rumos em suas vidas. A maioria já tinha uma lista dos próximos passos a serem dados. As faculdades que queriam fazer, os lugares onde iriam trabalhar. E eu não tinha nada. Me vi perdida, logo eu, que sempre fui elogiada por ser “planejada” por nunca deixar “as coisas por ultimo” estava lá sem chão, sem nada nas minhas costas além das fotos do ultimo dia de aula, com medo.
Crescer não é fácil.
Naquela mesma época eu estava no meio de um relacionamento em desarmonia, eu não consegui ir para frente, era como se estivesse com um grilhão de três toneladas no meu tornozelo, o peso era real, eu sabia que ele estava ali, mas não conseguia me livrar.
Pouco tempo depois meu relacionamento foi pro espaço, e eu recebi uma carta de um concurso que eu havia feito de ultima hora.

“Você foi aprovada” dizia, isso foi 24 de dezembro, era véspera de natal e eu realmente achei que foi um tipo de milagre de verão (por favor, porcaria de país tropical) então cheguei a conclusão que me deixaria levar.

Quando meu trabalho e curso iniciaram eu era ainda a mesma de sempre, a garota perdida de eu-não-sei-o-que-estou-fazendo-aqui mas com o tempo eu acabei descobrindo coisas que eu nem sabia que possuía. Descobri mais medo e também descobri a coragem para desafiá-lo; descobri a diferença entre colegas e amigos, mas que não necessariamente um seja melhor que o outros, apenas que ocupam funções diferentes em nossa vida; também descobri que essa porcaria de planejamento é uma merda, e que quando se tem 16 anos você não tem que pensar no futuro, tem que pensar no agora.

Cortei meus cabelos.

Antigamente acreditava-se que os cabelos eram responsáveis pelos “poderes” das bruxas, e que quando se cortava (antes do churrasco humano) elas se tornavam vulneráveis.
Cabelos longos são facilmente associáveis ao sexo feminino, a toda essa bobagem de longas tranças, cabelos sedosos, cachos fofos e mais esse mimimi babaca que eu sempre odiei mas seguia como uma lei.



Cortei meus cabelos.

Foi um tipo de libertação.
Não houve realmente nada por trás disso, eu estava cansada. Cansada de acordar todas as manhãs e passar horas arrumando-os só para depois me sentar e começar a lamentar porque não estavam bons, imaginando que todos fossem me olhar, julgar e rir.

Me livrei das correntes capilares assim como da química que os acompanhava. Larguei o emprego, comecei a trabalhar em algo que gostava, paguei um cursinho, aprendi a viver.

O cabelo, é claro, não tem nada a ver. Foi apenas um rito de passagem, sabe? Aquele tipo de momento bobo que acontece na sua vida e te marca de alguma maneira. Foi isso, não sei funcionaria com outra pessoa, mas funcionou comigo.

A seis meses atrás eu fui ao cabeleireiro e pedi que cortasse meus cabelos novamente. Nesse dia eles estavam na minha cintura, longos novamente, e eu precisava daquela renovação mais uma vez. Quando as mechas começaram a cair eu me desesperei.

“Não vai cortar muito né?” eu ri, a cabeleireira não respondeu. Ela cortou, cortou demais.

Hoje eu acordei e sacudi os cabelos, lancei a franja-que-não-é-franja pro lado e sai de casa despreocupada pouco me importando com o vento, a umidade os meus cachos que pulam por debaixo das mechas lisas.

Ta tudo bem. Não sei que é o que eu devo ser, mas é o que eu gosto de ser. Mentiria se dissesse que não me importo com o que os outros pensam, mas nesse dado momento eu e sinto tão bem comigo mesma que essa preocupação desaparece.


Ta tudo bem. De verdade

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