Em 2015
eu estava cursando meu último ano da faculdade, biblioteconomia, quinto
semestre. Uma das disciplinas era “Projetos Culturais”, em meio a teoria, nosso
projeto final era a elaboração de um Projeto Cultural que pudesse ser aplicado
em alguma instituição informacional (bibliotecas, escolas, centros de estudos,
etc) com foco em São Paulo capital. Meu grupo era formado uma gama de pessoas
muito diferentes. Tínhamos eu, a branca católica com parentes europeus; uma
jovem boliviana adventista; um rapaz evangélico descendente de indígenas (100%
brasileiro como ele costumava falar) e uma mulher negra espírita. Nos dávamos muito
bem, mesmo sendo separados por nossas etnias e religiões isso nunca havia sido
problema para nosso diálogo e trabalho. Enquanto decidíamos a respeito da
temática do nosso projeto, a jovem boliviana nos explicava mais a respeito dos
adventistas (que eu nunca tinha ouvido falar), rolando essa discussão bacana
surgiu a ideia “Caraca, estamos aqui todos no Brasil, mas possuímos tantas
diferenças... Por que não falar a respeito disso?”. Nossa ideia era falar sobre
as principais colônias que tornaram o Brasil esse incrível país miscigenado.
Trazer alguém que representa-se a Europa, um líder de movimento negro e outro
indígena, um representante do Japão (já que possuímos a maior colônia japonesa
fora do Japão) e fazer durante uma semana diversas rodas de conversa, teatro,
dança, debates com as crianças do ensino fundamental, explicando as diferentes
raízes do Brasil e como nos tornamos... Bem, brasileiros.
Todos achamos a ideia fantástica, empolgados fomos
apresentar o projeto para nossa professora, sua expressão era esquisita. Quando
terminamos ela jogou um balde de água fria em nós, achava que não era adequado,
que o projeto seria ÓTIMO se fosse apenas com negros e indígenas já que os
outros representantes jamais tinham sofrido qualquer tipo de opressão e por isso
eram DESNECESSÁRIOS para um projeto cultural.
Daí rolou aquele embate: Nota x Moral.
No final construímos o projeto como ela queria, mas nenhum
de nós engoliu aquilo direito, parecia um caroço em nossa garganta. É claro que
eu nunca fui vítima de nenhum preconceito, nem posso dizer o que negros passam
em seu dia-a-dia, mas sério que minha cultura deve ser ignorada por isso? “Cultura”
naquelas né, já que sou brasileira, a única coisa europeia que eu tenho na
minha casa é a pizza na sexta-feira. Mas pizza foi criada no Egito né? Droga.
Talvez eu seja só muito chata, mas tenho visto muito nos
últimos tempos esse mimimi gigantesco que não se pode cultuar nada que seja
feito por um BRANCO que automaticamente é opressão, péra ai, devo lembrar de
todos os brancos, homens, héteros que lutaram pelas causas dos negros, mulheres
e homossexuais?
Não me alongando mais do que isso, só tive esse insight após ontem, enquanto eu estava
no instagram, ler o depoimento de uma artista tailandesa que eu adoro dizendo o
quanto “Os olhos de chinês” (aquela prática de puxar os olhos) a perturbava e
fez dela infeliz na infância, e como sua dor era absolutamente ignorada ou
considerada menor por ela ser “branca”.
Vamos
parar pessoal que não ta dando.
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