domingo, 5 de junho de 2016

(XVIII) ❝Sobre esse choro incansável (que não é meu)❞

Em 2015 eu estava cursando meu último ano da faculdade, biblioteconomia, quinto semestre. Uma das disciplinas era “Projetos Culturais”, em meio a teoria, nosso projeto final era a elaboração de um Projeto Cultural que pudesse ser aplicado em alguma instituição informacional (bibliotecas, escolas, centros de estudos, etc) com foco em São Paulo capital. Meu grupo era formado uma gama de pessoas muito diferentes. Tínhamos eu, a branca católica com parentes europeus; uma jovem boliviana adventista; um rapaz evangélico descendente de indígenas (100% brasileiro como ele costumava falar) e uma mulher negra espírita. Nos dávamos muito bem, mesmo sendo separados por nossas etnias e religiões isso nunca havia sido problema para nosso diálogo e trabalho. Enquanto decidíamos a respeito da temática do nosso projeto, a jovem boliviana nos explicava mais a respeito dos adventistas (que eu nunca tinha ouvido falar), rolando essa discussão bacana surgiu a ideia “Caraca, estamos aqui todos no Brasil, mas possuímos tantas diferenças... Por que não falar a respeito disso?”. Nossa ideia era falar sobre as principais colônias que tornaram o Brasil esse incrível país miscigenado. Trazer alguém que representa-se a Europa, um líder de movimento negro e outro indígena, um representante do Japão (já que possuímos a maior colônia japonesa fora do Japão) e fazer durante uma semana diversas rodas de conversa, teatro, dança, debates com as crianças do ensino fundamental, explicando as diferentes raízes do Brasil e como nos tornamos... Bem, brasileiros.
Todos achamos a ideia fantástica, empolgados fomos apresentar o projeto para nossa professora, sua expressão era esquisita. Quando terminamos ela jogou um balde de água fria em nós, achava que não era adequado, que o projeto seria ÓTIMO se fosse apenas com negros e indígenas já que os outros representantes jamais tinham sofrido qualquer tipo de opressão e por isso eram DESNECESSÁRIOS para um projeto cultural.

Daí rolou aquele embate: Nota x Moral.

No final construímos o projeto como ela queria, mas nenhum de nós engoliu aquilo direito, parecia um caroço em nossa garganta. É claro que eu nunca fui vítima de nenhum preconceito, nem posso dizer o que negros passam em seu dia-a-dia, mas sério que minha cultura deve ser ignorada por isso? “Cultura” naquelas né, já que sou brasileira, a única coisa europeia que eu tenho na minha casa é a pizza na sexta-feira. Mas pizza foi criada no Egito né? Droga.
Talvez eu seja só muito chata, mas tenho visto muito nos últimos tempos esse mimimi gigantesco que não se pode cultuar nada que seja feito por um BRANCO que automaticamente é opressão, péra ai, devo lembrar de todos os brancos, homens, héteros que lutaram pelas causas dos negros, mulheres e homossexuais?

Não me alongando mais do que isso, só tive esse insight após ontem, enquanto eu estava no instagram, ler o depoimento de uma artista tailandesa que eu adoro dizendo o quanto “Os olhos de chinês” (aquela prática de puxar os olhos) a perturbava e fez dela infeliz na infância, e como sua dor era absolutamente ignorada ou considerada menor por ela ser “branca”.  


Vamos parar pessoal que não ta dando.